Divulga fissura

Blog para divulgação de pesquisas científicas sobre fissuras labiopalatinas

Políticas públicas em saúde, tecnologias de informação e comunicação (TIC´s) e necessidades de saúde de fissurados

Para as pesquisadoras Isabella Lopes Monlleó e Vera Lúcia Gil-da-Silva-Lopes, é possível que as necessidades de saúde dos portadores de anomalias craniofaciais no país não estejam sendo plenamente atendidas, seja devido às grandes distâncias geográficas que devem ser vencidas, seja devido às dificuldades enfrentadas para a manutenção de um cronograma regular de consultas de seguimento, particularmente na área de reabilitação, ou, ainda, para estabelecimento de vínculos com a equipe e com o serviço. Autoras do estudo “Anomalias craniofaciais: descrição e avaliação das características gerais da atenção no Sistema Único de Saúde”, as pesquisadoras ressaltam que, no Brasil, a história da atenção às anomalias craniofaciais confunde-se com a luta de profissionais, pesquisadores e famílias de portadores que, “ao longo dos últimos 35 anos, não mediram esforços para a inserção desses defeitos congênitos na pauta das políticas de saúde”.

A pesquisadora Talita Fernanda Stabile Fernandes, autora do estudo “As repercussões sociais em indivíduos com distúrbios de comunicação associados às fissuras labiopalatinas com e sem perda auditiva”, observou que as demandas trazidas por pacientes com distúrbios de comunicação associados às fissuras labiopalatinas representam desafios para equipes que desenvolvem intervenções e tratamentos de reabilitação, pois exigem o conhecimento aproximado da realidade familiar, cultural e social deste público. Ao conhecer essa realidade, defende a pesquisadora, é possível decifrar as expressões da questão social que envolve os fissurados e seus familiares, e assim desenvolver estratégias de prevenção e transformação do cenário de desigualdade e exclusão social que para sobre essa população. A participação de fissurados e seus familiares, portanto, em seus papeis de usuários de sistemas de saúde, torna-se fundamental neste processo, sendo estabelecida em novas políticas públicas de saúde que priorizam o diálogo apoiado em tecnologias de informação e comunicação (TIC´s) como estratégia de humanização da saúde brasileira.

A proposição da Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo agrupa experiências de humanização por eixos interconectados e interdependentes, em conformidade com a lógica de políticas públicas de saúde que visam qualificar e fortalecer tecnologias de diálogo e interação entre programas, áreas, serviços, equipes e profissionais da rede de saúde. Ao total, são cinco eixos (Fonte: I Fórum Paulista de Humanização nas Práticas de Saúde: 25 anos SUS):

(1) Redes e Regionalização, compreendendo a forma como serviços e equipes de saúde se relacionam e estratégias de fortalecimento das formas de comunicação, bem como tecnologias fundamentais para a qualificação dos encontros e colaborações entre diferentes serviços e profissionais da saúde, visando à facilitação na distribuição de poderes e saberes, ao estímulo da autonomia e respeito às singularidades dos territórios e ao maior conhecimento dos problemas e condições de saúde dos usuários. Este eixo reúne experiências de caráter humanizador desenvolvidas nas redes homogêneas: Rede de Atenção Básica, de Atenção Psicossocial, de Urgência e Emergência, de Atenção à Pessoa com Deficiência, Rede Cegonha, Rede de Oncologia etc.; e nas redes heterogêneas: redes com funcionamento transversal, que favorecem o diálogo e interação entre programas e redes temáticas, e que se produzem por meio de entrelaçamentos entre diferentes atores, serviços, movimentos e políticas num dado território;

(2) Produção do Cuidado, compreendendo a valorização dos processos de trabalho de forma a favorecer o exercício de responsabilidade ética, técnica e social e a produção de cuidado orientada principalmente pela complexidade que caracteriza a vida dos usuários, promovendo a mudança de lugar entre usuários e profissionais: para o usuário, de agente passivo e objeto das ações de saúde, para agente ativo e sujeito na produção de sua saúde; para o profissional, de trabalhador isolado e preso a rotinas, para profissional que pode exercer sua capacidade e criatividade numa equipe de trabalho, adaptando o cuidado a cada nova situação e demanda. Este eixo reúne experiências que favorecem a integralidade do cuidado e o rompimento de ações fragmentadas, uniprofissionais e desarticuladas, nas quais a pessoa é reduzida à sua condição patológica;

(3) Gestão Participativa, compreendendo posturas éticas e administrativas dos diferentes sujeitos na produção de saúde – usuários, trabalhadores e gestores – co-responsáveis pela promoção de uma assistência à saúde efetiva, solidária, integrada, afetiva, acolhedora e digna; favorece a organização do trabalho baseado em objetivos comuns e não exclusivamente no saber das profissões e categorias profissionais, priorizando o pensar e o fazer coletivo, de forma a minimizar o corporativismo e maximizar o controle social no sistema de saúde. Este eixo reúne estratégias para construção, organização e concretização de arranjos coletivos, como estratégias de produção de saúde que colaboram para a autonomia do indivíduo e sua corresponsabilização e experiências de análises, decisões e avaliações construídas coletivamente no cotidiano das práticas de saúde;

(4) Participação do Usuário, na proposição e avaliação das políticas públicas de saúde, ainda um grande desafio apesar de avanços como instalação das ouvidorias nos serviços de saúde, canais de atendimento de manifestação, pesquisa de satisfação e Conselhos de Saúde, entre outros. A sistematização das informações levantadas junto aos canais de participação e de escuta do usuário constitui uma excelente ferramenta para a qualificação da administração pública, ampliando o seu comprometimento com a participação popular e a gestão participativa. O fortalecimento das relações entre usuários, familiares, rede social e equipes de saúde pode promover importantes mudanças para a melhoria da organização do trabalho. Este eixo reúne estratégias que favorecem a participação do usuário; estratégias de fortalecimento do controle social e de gestão participativa com presença do usuário; mecanismos de escuta do cidadão usuário e da população em geral; ações de disseminação do conceito e da dinâmica das ouvidorias; e

(5) Valorização do Trabalhador nas Práticas de Saúde, compreendendo estratégias para participação efetiva do trabalhador na avaliação e revisão dos processos em que está envolvido e na gestão das instituições de saúde a que pertence. Dessa forma, visa reconhecer os trabalhadores como sujeitos de seu saber e de seu fazer cotidiano, ampliando sua capacidade de análise, diálogo e participação coletiva. Este eixo reúne experiências que evidenciam a participação do trabalhador em instâncias colegiadas, trabalho em equipe, estratégias de facilitação ao diálogo e comunicação, democratização dos processos decisórios com co-responsabilização, atividades de cuidados e atenção aos trabalhadores voltadas à saúde e qualidade de vida no trabalho.

Texto escrito por Silvana Schultze, do blog Divulga Fissura. É permitida a reprodução desde que citada a fonte, inclusive dos trabalhos originais dos quais as informações científicas foram retiradas.

Para conhecer o estudo completo “Anomalias craniofaciais: descrição e avaliação das características gerais da atenção no Sistema Único de Saúde”, acesse o link: http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2006000500004.

Para conhecer o estudo completo “As repercussões sociais em indivíduos com distúrbios de comunicação associados às fissuras labiopalatinas com e sem perda auditiva”, da pesquisadora Talita Fernanda Stabile Fernandes, acesse o link: http://www.scielo.br/pdf/acr/v20n1/2317-6431-acr-20-1-0040.pdf

Para conhecer o texto completo do “I Fórum Paulista de Humanização nas Práticas de Saúde: 25 anos SUS”, acesse o link: http://sistema.saude.sp.gov.br/sde/documentos/eixos_tematicos_iforum_paulista.pdf

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